Exercite a humildade
 Edição nº3 – novembro 2003
“Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima..." Quando o objetivo é superar acontecimentos difíceis, esse é o conselho mais comum que acabamos ouvindo das pessoas próximas. Discordo um pouco dessa recomendação. Acredito que, para vencer obstáculos e aprender com eles, quase sempre temos que dar um passo para trás. Recuar alguns metros às vezes é fundamental para enxergar determinadas situações com mais clareza. Um exemplo? Imagine que você está andando pela rua num dia de chuva e encontra uma grande poça d'água no caminho. Suponhamos que seja impossível continuar o percurso sem ultrapassá-la. O que você faz? Dá um passo - ou mais - para - trás e calcula o impulso necessário para pular, não é mesmo? Imaginemos ainda outra situação: você está numa exposição bem em frente àquele quadro que lhe agradou. Se a idéia é compreendê-lo melhor, de nada adianta a proximidade. Para enxerga-lo por inteiro e captar todas as suas nuances e traços, fatalmente você vai ter que se afastar mais. Qualquer avanço - pessoal, profissional ou financeiro - depende de sabermos dar um passo para trás. E isso nada mais é do que exercitar a humildade no dia-a-dia. Significa admitir que nem sempre nossas razões, escolhas e atitudes são as mais corretas e que, de tempos em tempos, precisamos interromper a marcha e retornar ao ponto no qual deixamos algumas pendências. Entretanto, a questão é que temos muita dificuldade de "olhar para trás" e reconhecer o que precisa ser mudado. Não deveria ser assim: afinal, todos cometemos erros e não há mal nenhum nisso. Sabe por quê? Porque eles são o simples resultado da falta de conhecimento em algum assunto. Ora, se é impossível saber tudo, chega a ser pretensão querer acertar sempre. Em vez de negar nossos erros, o melhor a fazer é usá-los para evoluir. Se alguém criticou seu comportamento, pare e reflita a respeito. Pergunte à pessoa o que ela teria feito no seu lugar e que atitude julgaria correta nesse caso. Seu chefe não aprovou o seu projeto? Converse com ele sobre isso. Peça para que aponte e justifique os pontos que o desagradaram. Ele pode estar certo ou não, mas de qualquer forma você vai ter a chance de se auto-avaliar. Sem isso não se chega à humildade, muito menos ao verdadeiro conhecimento. A regra do "levantar a cabeça, seguir adiante e passar por cima dos acontecimentos" - ou, se preferir, passar por cima do orgulho - certamente seria mais cômoda nessas situações. Mas acredite: no meio do caminho ela se mostraria incapaz de gerar impulso para transpor uma simples poça d'água...
mais humilde no dia-a-dia
Repita a seqüência abaixo durante uma semana:
Afirmação matinal: "Sei que minhas razões, escolhas e atitudes nem sempre são as mais corretas. Vou usar as experiências de hoje para me auto-avaliar."
Numa situação difícil, mentalize: "Os erros que cometo são reflexo daquilo que ainda não aprendi. Vou reconhecê-los e usá-los para evoluir."
Diga a si mesma: "Sou capaz de ouvir críticas sem me magoar. Elas não servem para me agredir, mas para me ajudar a perceber onde estou errando."
Diário noturno: Escreva ou medite sobre como se sentiu incluindo a humildade no seu cotidiano. Descreva as situações que viveu e faça uma avaliação detalhada. O que você aprendeu? Qual foi a reação da outra pessoa envolvida?
*Dr. Jou Eel Jia é médico de formação clássica e professor de medicina tradicional Chinesa.
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