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PERFIL
As agulhas mágicas do doutor Jou
Dono da mais badalada clínica de acupuntura da cidade, o médico chinês atrai uma lista de pacientes famosos com receitas anti-stress que incluem ervas, sucos e meditação
Erika Sallum
Heudes Regis
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| O governador Alckmin e o doutor Jou na clínica do Ibirapuera: "Com ele, mantenho meu equilíbrio" |
Toda vez que se sente estressado ou com pouca disposição, Geraldo Alckmin pede a sua secretária que marque uma consulta com o médico acupunturista Jou Eel Jia. É nas mãos desse chinês naturalizado brasileiro que o governador de São Paulo relaxa pelo menos uma vez por semana. "São agulhadas milagrosas", afirma Alckmin, que também é médico. "Há dois anos, só me trato com ele. Assim, mantenho meu equilíbrio, inclusive em situações de enorme pressão." Proprietário da clínica de acupuntura mais badalada da cidade, o doutor Jou, como é tratado, tornou-se uma estrela em sua área. Além do governador, uma longa lista de pacientes conhecidos faz fila para arrumar um horário com ele. Entre as mais de 30 000 pessoas que garante ter atendido em vinte anos de carreira, estão políticos, como José Serra, Aloizio Mercadante e Romeu Tuma, e artistas, entre eles Denise Fraga, Regina Duarte, Elba Ramalho e Luciana Gimenez.
Gladstone Campos
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"Uma dor na coluna me atazana desde que levei um tombo. As sessões de acupuntura do doutor Jou aliviaram demais os sintomas." Luciana Gimenez, apresentadora |
Nascido no sul da China 45 anos atrás, o doutor Jou mais parece um executivo. De terno e gravata, com sua inseparável pasta preta de documentos, ele passa o dia correndo de um lado para o outro. Não tira os olhos do relógio, mas vive se atrasando nos compromissos. É comum atender oitenta pacientes por dia, com queixas que vão de dor nas costas a quadros de depressão. A entrada de seu consultório, localizado a poucos metros do Parque do Ibirapuera, fica apinhada de carrões importados. Na sala de espera, decorada com elegantes móveis brancos, os clientes aguardam ao som de uma tranqüila música new age. Enquanto isso, o doutor Jou se desdobra para dar conta dos pacientes em tratamento, espalhados por dezesseis salinhas. "Vivem me dizendo que sou estressado", diz ele. "Que nada! Sou uma pessoa agitada, né? É muito difelente", arremata, escorregando no sotaque oriental que sobrevive após 33 anos de Brasil.
Mario Rodrigues
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"Ele é um médico sensível. Vai além da busca do diagnóstico. Não trata apenas a doença, mas se preocupa principalmente com sua origem." Luiza Erundina, deputada federal |
Filho de políticos que deixaram a China depois da Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, no fim dos anos 60, o doutor Jou sempre soube que queria ser médico. Conta que o avô era filósofo e praticava a medicina chinesa em sua cidade natal. "Cresci vendo-o receitar chás, ervas e acupuntura aos doentes", lembra. Criança hiperativa, foi encaminhado pela família a um templo local para adquirir o conhecimento e as boas maneiras dos mestres budistas. Afirma que, com menos de 10 anos, lutava kung fu, recitava mantras e sabia de cor princípios do confucionismo e taoísmo. Quando chegou ao Brasil, canalizou sua inquietação para os estudos. Não ia a festas, danceterias nem se interessava por futebol – apesar de hoje cultivar certa simpatia pelo Corinthians. "Achava tudo isso muito sem glaça", confessa. "Preferia ficar em casa lendo Sócrates e Freud", jura. Aos 17 anos, entrou nas principais faculdades de São Paulo. Sem ter completado o colegial, conseguiu permissão para cursar a Escola Paulista de Medicina por meio de um mandado de segurança.
Leo Feltran
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"Após tanto tempo trabalhando na TV, fiquei com pânico de entrar no ar ao vivo. As agulhas e a meditação me fizeram recobrar a autoconfiança." Maria Cristina Poli, jornalista da Rede Bandeirantes |
Durante a faculdade, aproveitava para estudar a medicina chinesa. Lia textos originais, conversava com especialistas da comunidade, viajava para a China para se aprofundar. Na época em que abriu o primeiro consultório, no início dos anos 80, era um dos únicos acupunturistas da cidade com diploma de médico. No Brasil, a acupuntura só seria reconhecida como especialidade médica em 1995. "Meu objetivo sempre foi unir os ensinamentos orientais aos ocidentais", diz ele. "Nunca seguir apenas um caminho." Logo de cara, começou a cuidar da saúde de poderosos, como o ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira e o então governador Franco Montoro, que costumava chamá-lo no meio da madrugada. "Jou é um apaixonado pela política", entrega Bresser. O doutor nega (não revela nem em quem votou para presidente do Brasil), mas adora mostrar fotos suas com autoridades chinesas, entre elas o próprio presidente chinês, Jiang Zemin.
Uma típica consulta com o doutor Jou começa quando ele sente o pulso do paciente. A partir daí, e de uma minuciosa observação de seu comportamento, da cor da pele e da postura, faz o diagnóstico em poucos minutos. Para isso, cobra 250 reais. Dependendo do caso, receita mais do que sessões de acupuntura (85 reais cada uma). São incluídos em suas prescrições chás, extratos de ervas, sucos de frutas, práticas corporais (como lien chi e lian gong), massagens e até pedaços de animais secos ou em pó. "Os chás do doutor Jou limparam meu organismo totalmente", diz Elba Ramalho. "Ainda hoje, quando sinto necessidade, fervo as ervas que ele me deu."
Mario Rodrigues
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"Procurei-o quando entrei em depressão, há quinze anos. Com sua ajuda, superei a doença. Mesmo depois de curado, não deixo de vê-lo." Alcides Amaral, ex-presidente do Citibank no Brasil |
É preciso deixar claro que, fora a acupuntura, as práticas da medicina chinesa não são reconhecidas no país. "E mesmo a acupuntura tem seus limites", afirma Regina Parizi, presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. "Está cientificamente comprovado que ela é eficaz em muitos casos, mas não se pode generalizar e dizer que cura todo e qualquer mal." Médicos costumam apontar que muitas pessoas recorrem às agulhas para aliviar uma dor sem saber direito a origem do problema. "Uma simples tendinite pode ser sintoma de algo bem mais grave", adverte a professora de clínica médica da USP Maria do Patrocínio Nunes. O doutor Jou afirma que normalmente pede aos clientes testes de sangue, endoscopias e outros exames. Às vezes, receita medicamentos alopáticos. "Sei que não posso tratar sozinho de uma pessoa com câncer", explica. "Mas minhas agulhas têm se mostrado capazes de aliviar as dores da quimioterapia, por exemplo."
Outra vedete da clínica é a meditação. Ele a recomenda a quase todos que o procuram. No 2º andar do consultório, há uma sala reservada para esse fim. Forrada com almofadas, tem na parede uma seqüência de máscaras chinesas que simbolizam a ignorância, a arrogância, o medo, o ciúme, a cobiça... "A meditação melhora a mente e o corpo, aliviando o sofrimento representado nessas máscaras", apregoa. Irrequieta por natureza, a jornalista Maria Cristina Poli, da Rede Bandeirantes, teve de controlar a ansiedade quando o doutor Jou praticamente a arrastou para uma sessão de meditação. "Eu o procurei porque estava com pânico de fazer reportagens ao vivo", recorda ela. "Ao lado das agulhas, meditar foi fundamental para que eu resgatasse a autoconfiança."
Heudes Regis
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Com a chef de cozinha Leila Pires, sua cliente há mais de uma década: oitenta pacientes por dia |
Há três anos, o doutor Jou inaugurou uma sala de meditação gratuita no Hospital do Servidor Público Municipal, na Aclimação. Ali, ele coordena um núcleo de difusão da medicina chinesa. Quatro vezes por semana, dá aulas aos médicos, que no final do curso utilizam o que aprenderam em outros hospitais públicos da capital. Desinibido diante de um auditório lotado de profissionais de saúde, ele faz graça durante as aulas. Brinca com os estudantes e xinga quem esqueceu a lição de casa. "Pleguiçosos! Vocês parecem um time de futebol de tanto que chutam", diz, divertindo a platéia. Atualmente, os núcleos de difusão atendem mais de 500 pessoas por dia em doze pontos da cidade. "Nossa intenção é incluir a acupuntura em todos os hospitais da rede municipal", afirma o médico Emílio Telesi Jr., assessor da Secretaria Municipal de Saúde, patrocinadora do projeto.
Heudes Regis
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Em uma cerimônia da filosofia chan tao, que mescla princípios do budismo e taoísmo: "Para quem quer relaxar, meditação é tilo e queda" |
Além dos alunos-médicos, o doutor Jou ensina outro grupo peculiar. Trata-se de seus discípulos. São oito jovens que passam o dia inteiro perto dele. Carregam no braço uma pulseirinha com pedras verdes, indicação de que escolheram o doutor como mestre. Com ele, os rapazes aprendem artes marciais, técnicas de massagem e princípios da filosofia chan tao, que mescla taoísmo e budismo. Alguns cursam medicina ou fisioterapia. Dias de folga são raríssimos em sua rotina. "Fizemos um pacto de aprender o máximo possível com nosso mestre", diz Rodrigo Hidalgo, de 23 anos. Antigo paciente, Hidalgo virou sócio da clínica e, junto com as práticas corporais, cuida da parte administrativa. "Não é fácil. Ele é extremamente rigoroso e exige muita disciplina", revela o discípulo.
Dono de uma agenda que começa às 8 horas e termina bem depois da meia-noite, o doutor Jou quase não tem tempo para se divertir. Separado, pai de três filhos, detesta falar da vida pessoal. Não suporta lugares da moda: "Prefiro comer um sushi num japonês desconhecido da Liberdade". Tampouco vai ao cinema. Três vezes por semana, corre no Ibirapuera. Distrai-se fazendo arranjos florais (ikebanas). Aos sábados e domingos, trabalha mais ainda. Cuida pessoalmente de seu "spa da mente", um tipo de hotel que abriu no ano passado numa reserva em Jundiaí. Na casa de vidro construída perto do lago, o acupunturista promove cerimônias de mantras para os hóspedes. Vestido com roupas à Bruce Lee, volta e meia demonstra as habilidades no kung fu e tai chi chuan. Para repor as energias depois de tantas atividades, segue o mesmo ritual diariamente. "Sento num canto tranqüilo e medito por uns minutos", diz ele. "É tilo e queda."
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Meditação passo a passo
Como aliviar a mente e o corpo, segundo o acupunturista chinês
André Fortes
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Na hora de meditar, escolha um lugar tranqüilo, silencioso e arejado. A luz deve ser indireta. Evite ambientes claros ou escuros demais.
Não ouça música. Prefira o silêncio. Se quiser, acenda um incenso.
Use roupas confortáveis.
Você pode sentar-se em uma cadeira (com as pernas descruzadas e com os joelhos em 90 graus) ou no chão, em posição de lótus (com o pé esquerdo sobre a perna direita). Uma vez sentado, não mude de posição, mesmo que isso gere desconforto. Mantenha sempre o tronco ereto.
Coloque a palma direita da mão sobre a palma esquerda, unindo as pontas dos polegares. As mãos devem permanecer repousadas um palmo abaixo do umbigo, tocando levemente o abdome.
Coloque a língua no céu da boca. Os olhos devem permanecer semi-abertos, fitando o chão a 45 graus (mire a ponta do nariz, mas não se fixe nela).
Concentre-se apenas no ar que entra e sai de seu corpo. A cada respiração, vá contando de um a dez. Se começar a pensar em algo, retorne à contagem inicial.
Medite todos os dias, de dez a quinze minutos. Aumente o tempo conforme achar necessário.
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Para uma vida mais saudável e tranqüila
Algumas dicas que o doutor Jou dá a seus pacientes para minimizar os efeitos do stress
Heudes Regis
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| Em um momento Karatê Kid, em seu "spa da mente" em Jundiaí: especialista em kung fu, tai chi chuan e lian gong |
Quando você estiver tenso, corra ou faça algum exercício aeróbico. Eles ajudam a aumentar o chi (energia) do corpo, melhorando o humor e a disposição.
Mantenha uma disciplina em relação ao horário de dormir e descanse bastante. Isso não significa dormir demais. Muitas horas de sono seguidas nem sempre fazem bem.
É preciso dosar a alimentação de acordo com as diferentes situações do dia-a-dia. Se você, por exemplo, irá enfrentar um compromisso estressante ou uma reunião em que precisará impor-se, coma carne. Um bom bife aumenta a agressividade. Se vai curtir um encontro entre amigos, prefira saladas e alimentos leves, que diminuem a agitação e a ansiedade. Nos fins de semana, quando o corpo descansa e não necessita da tantas calorias, coma menos.
Para quem sofre de gastrite, afta, herpes ou é ansioso e agitado demais, o ideal é beber bastante água-de-coco e suco de melancia ou de melão. Assim, acalma-se o que na medicina chinesa é chamado de ascensão do fogo e esfria-se o organismo.
É ilusão achar que o álcool serve para relaxar. Apesar da sensação de relaxamento do início, depois ele gera muita ansiedade.
Se você está passando por uma situação de pânico, lembre-se: todo medo é enfrentável. Sente-se e concentre-se em sua respiração por vinte minutos. Pode ter certeza de que, com isso, o medo ficará mais controlável.
Medite sempre. Com a meditação é possível transformar-se em uma pessoa melhor. Por meio dela, relaxam-se a mente, o corpo e o espírito.
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